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  • 04/12/2020 10:40 hora local

Descrição

Projetado pelo arquiteto e cenógrafo italiano Vicenzo Mazzoneschi, o Real Teatro de São João foi construído para dotar a “segunda cidade do Reino” de uma “bela escola de costumes e de civilidade”.

Inaugurado oficialmente no dia 13 de maio de 1798, foi o primeiro edifício construído de raiz no Porto exclusivamente destinado à apresentação de espetáculos. Seria destruído por um incêndio na noite de 11 para 12 de abril de 1908. No rescaldo da tragédia, uma testemunha ocular anotou as primeiras impressões: “É desolador o aspeto do edifício, do qual apenas restam as paredes e através de cujas portas e janelas se descortina a enorme ruinaria em que ficou transformada a nossa primeira sala de espetáculos”. No exato lugar desta “ruinaria” haveria de erguer-se o edifício-monumento que hoje conhecemos.

Em outubro de 1909 é lançado um concurso público para a sua reconstrução, do qual sairia vencedor o anteprojeto assinado por José Marques da Silva. Considerado “o último arquiteto clássico e o primeiro arquiteto moderno do Porto”, Marques da Silva convocou para o seu projeto um conjunto de formas e sinais que dialogavam com a memória do edifício desaparecido. A formação estilística e metodológica absorvida na École des Beaux-Arts de Paris reforçou o fascínio pelos “modelos franceses”, bem evidenciado por uma rigorosa e teatralizada articulação de espaços de acolhimento, transição e representação. O arquiteto conseguiu conjugar os valores de ostentação com os valores de eficácia, integrando com sucesso os aspetos puramente arquitetónicos e os construtivos. Valer-se-ia de uma nova técnica, com a utilização do betão na ossatura fundamental e as argamassas de cimento nos revestimentos. À época da sua inauguração, a 7 de março de 1920, o Teatro de São João representava um compromisso entre a inovação técnica e a continuidade estilística de um gosto tradicional. Num só gesto, Marques da Silva captou a essência da melhor arquitetura: ativar uma memória para a reinterpretar no confronto com o novo.

Em 1932, apenas doze anos após a sua inauguração e acompanhando a decadência da atividade teatral na cidade, passou a chamar-se São João Cine, dedicando a maior parte da sua programação à exibição cinematográfica. O edifício foi esquecido e entrou numa fase de progressiva degradação. Adquirido pelo Estado, foi reinaugurado a 28 de novembro de 1992 com a designação oficial de Teatro Nacional São João. Restaurado, remodelado e reequipado entre 1993 e 1995, segundo projeto do arquiteto João Carreira, voltou a ter uma programação regular. O edifício readquiriu a sua dignidade arquitetónica, a cidade ganhou um projeto com personalidade artística própria.

Em 2006, a dilatação das juntas do edifício começou a provocar a queda de blocos de betão da estrutura. Por questões de segurança, foi rodeado por uma rede de proteção e entaipado. A intervenção de restauro da envolvente exterior do edifício foi iniciada em maio de 2013 e concluída em setembro de 2014. Foram realizadas, entre outras, operações de limpeza, restauro e pintura das fachadas, reforços estruturais, reabilitação das coberturas e reparação dos elementos ornamentais. A conclusão das obras devolve-lhe o antigo esplendor e vigor, pondo a descoberto um rosto do edifício há muito esquecido.

Restaurar é colocar em prática um processo de reparação, de resgate, de justiça. Mas restaurar é também sinónimo de reparar, de “ver com cuidado”, de “fixar a vista ou a atenção”. Só quando reparamos começamos e recomeçamos a ver. Enfim reparado em 2014, o edifício do Teatro Nacional São João prossegue o seu caminho rumo a 2020, ano do centenário.

Como sempre, animado não pela pretensão de continuar a fazer história, mas pela ambição de que no seu interior a história do teatro recomece todas as noites.

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Teatro Nacional São João, Praça da Batalha, Porto, Portugal

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